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Relação das escolas com as famílias durante a pandemia

Relação das escolas com as famílias durante a pandemia

A família tem papel fundamental no processo educativo das crianças e adolescentes, papel conferido inclusive pelo Artigo 205 da Constituição Federal, que diz “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”. A importância e o impacto da participação familiar no processo educativo é tema de diversos estudos e pesquisas acadêmicas.

Todas as vezes que estudei o assunto, encontrei argumentos positivos do apoio familiar aos estudantes nas atividades escolares. A participação dos pais e das mães pode ser essencial para o aprendizado de valores sociais, o desenvolvimento de competências socioemocionais e a manutenção da motivação com os estudos. Por isso, as escolas buscam formas de incentivar a sua presença nas atividades e aproximá-los do processo educativo de seus filhos.

No entanto, sabe-se que alguns pais e mães não têm o costume de se envolver com a educação das crianças, seja por falta de tempo, de interesse ou da consciência da sua importância, delegando o processo integralmente para as escolas. No atual contexto de pandemia e da necessidade do isolamento social, o processo educacional torna-se mais dependente da presença dos familiares. No ensino remoto emergencial os alunos estudam em casa e, provavelmente, precisam de ajuda para organizar os horários, comunicar com a escola e até para compreender as atividades enviadas pelos professores e professoras.

Neste artigo, vou analisar a relação entre escolas e famílias no contexto do ensino remoto emergencial, devido ao COVID19.

 

Estudos analisados

Na análise, considerei dados obtidos em três estudos, já utilizados nos meus textos anteriores.

O primeiro foi realizado pelo Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) e pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e contou com a participação de 232 secretarias municipais de educação.

A segunda pesquisa foi desenvolvida pela Fundação Carlos Chagas (FCC),em parceria com a UNESCO e o Itaú Social, e entrevistou mais de 14 mil professores.

A terceira pesquisa foi realizada pelo DataFolha, contratada pela Fundação Lemann e pelo Itaú Social. O público entrevistado foram pais, mães ou responsáveis de alunos das redes públicas de todos as regiões do Brasil.

 

O papel dos pais, mães e responsáveis no ensino remoto emergencial

O ensino remoto emergencial consiste em atividades não presenciais propostas pelos professores e professoras, com objetivo de continuar o processo educativo durante a pandemia. Escrevi um artigo sobre as estratégias educacionais adotadas pelas escolas neste período, em que ressaltei o fato de não podermos chamar de Educação à distância, já que esta pressupõe um planejamento e metodologias desde o princípio pensados para o processo não presencial. No caso da educação básica, o programa é estruturado para ser realizado de maneira presencial, assim escolas, professores e alunos não estavam preparados para o distanciamento.

No mês de Abril, o Conselho Nacional de Educação (CNE) elaborou as diretrizes para as escolas durante a pandemia indicando as ações educacionais por nível e modalidade de ensino que são recomendadas pelo conselho. No parecer, o papel da família é visto como essencial para manter o vínculo com as escolas e evitar retrocessos no desenvolvimento dos estudantes.

Ao enunciar as recomendações para o ensino remoto, o CNE mostra que há maior necessidade da participação dos pais, quanto mais novos os filhos. No ensino infantil, o foco é estreitar vínculos e fazer sugestões de atividades conjuntas para os pais e as crianças. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, os adultos têm papel de “mediadores”, recebendo as orientações dos professores por meio de roteiros. O próprio CNE reforça que não se pode “pressupor que os ‘mediadores familiares’ substituam a atividade do professor”, indicando que as instruções devem delimitar seu papel e ajudar na organização de uma rotina com os alunos.

Nos anos finais do Fundamental e no Ensino Médio, a recomendação é que os alunos exerçam e desenvolvam sua autonomia nos estudos, realizando uma quantidade maior de atividades não presenciais, com orientação dos professores. Nesses casos, a participação dos pais pode contribuir, principalmente, na organização da rotina e na motivação com os estudos.

 

O relacionamento entre estudante e família

O relacionamento entre familiares que dividem o mesmo teto em uma situação de isolamento social pode se tornar estressante e causar problemas entre as pessoas. Porém, a pesquisa do Datafolha indicou que na opinião de apenas 25% dos responsáveis entrevistados a relação com o estudante piorou.

               Fonte: Datafolha

A percepção dos professores, medida pela pesquisa da Fundação Carlos Chagas, também foi de que o vínculo entre estudante e família aumentou neste período de pandemia. Quase metade (47%) dos docentes entrevistados indicou esta opção, enquanto apenas 10% sentiu uma diminuição.

               Fonte: FCC

Apesar do Datafolha só ter perguntado aos pais se houve piora e de que 22% dos professores da pesquisa da FCC não souberam indicar, pode-se ver uma perspectiva positiva nos dados sobre o relacionamento entre famílias e estudantes.

Uma boa relação entre o estudante e seus pais abre mais possibilidades para a participação no processo educativo. Assim, quanto mais leve, íntimo e dialógico for este vínculo, melhor para o desenvolvimento das crianças e adolescentes.

 

A relação escola-família durante a pandemia

As recomendações das secretarias de saúde são de realizar isolamento social, evitando sair de casa e encontrar outras pessoas se não houver necessidade. Assim, de acordo com o estudo do IRB / Iede com secretarias municipais, a comunicação entre escolas e pais foi feita de três maneiras: utilizando a internet, via whatsapp e e-mail; por ligação de telefone; ou com atendimento presencial, em casos necessários.

As principais orientações aos pais e mães estão ligadas à organização do tempo de estudo, às atividades pedagógicas, à importância de motivar os filhos a não abandonar os estudos e ao fornecimento de feedback em relação às atividades e plataformas utilizadas. As principais dificuldades encontradas para a participação as famílias foi que “muitos não têm noção da importância da relação com a escola, outros porque trabalham ou porque não têm ideia do processo ensino aprendizagem”, além de mudanças de telefone e endereço não registradas no cadastro da escola.

Dentre os professores e professoras entrevistados pela Fundação Carlos Chagas, cerca de 45% perceberam um aumento na relação entre escola e famílias e apenas 11% sentiram uma diminuição.

               Fonte: FCC

Por outro lado, a pesquisa do Datafolha de Junho indicou que 44% dos pais não recebeu orientação da escola para colaborar com o processo de aprendizagem de seus filhos. É preocupante que quase metade das famílias precisem auxiliar os estudantes sem instruções e apoio das instituições de ensino.

               Fonte: Datafolha

Fico com a sensação de que os pais estão dispostos a assumir um papel mais ativo na educação de seus filhos, neste contexto em que o processo de ensino acontece de maneira remota, com os estudantes em suas casas. Porém, as orientações da escola e dos professores não chega a uma boa parcela das famílias. Há uma barreira de acesso à tecnologia dificultando a comunicação virtual, mas também um erro de gestão ao manter cadastros de contatos desatualizados.

A participação da família no processo educativo é benéfica para o desenvolvimento das crianças e adolescentes, especialmente durante o ensino remoto emergencial. É importante buscar formas de ampliar as orientações para os pais e, quando voltarem as atividades presenciais, trabalhar para manter as famílias próximas à escola.

 

Além do pedagógico: a distribuição de alimentos

No dia 07 de Abril de 2020, foi aprovada a lei 13.987 / 2020 que autoriza durante a pandemia “a distribuição imediata aos pais ou responsáveis dos estudantes nelas matriculados, com acompanhamento pelo CAE, dos gêneros alimentícios adquiridos com recursos financeiros recebidos, nos termos desta Lei, à conta do Pnae” (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Assim, as escolas estão responsáveis por destinar os recursos das refeições às famílias dos estudantes. De acordo com pesquisa do IRB / Iede, 94% das secretarias municipais estavam desenvolvendo ações neste sentido (dados coletados em Maio e Junho).

               Fonte: IRB / Iede

Desta forma, as instituições de ensino estão desempenhando um papel socioeconômico. Disponibilizar alimentação para os estudantes das escolas públicas é um dever do Estado que foi adaptado para a situação de pandemia. Conversei com escolas que fizeram campanhas de arrecadação de alimentos com o bairro para ampliar a distribuição para as famílias mais vulneráveis. Ouvi relato de uma diretora que tomou a decisão de comprar todos os alimentos dos pequenos comerciantes locais, como forma de fortalecer os vínculos com a comunidade.

Apesar das dificuldades, as escolas buscam fortalecer os vínculos com as famílias e a comunidade. O primeiro desafio é conseguir a comunicação com todos os pais e mães, oferecendo orientações e suporte para participarem da educação dos filhos, depois a manutenção desta relação mesmo com a volta às atividades presenciais.

 

Foto de capa de Bima Rahmanda em Unsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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