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Professores em 2020: reflexão crítica sobre as condições de trabalho

Professores em 2020: reflexão crítica sobre as condições de trabalho

No ano de 2020, marcado pela pandemia, as escolas tiveram que se desdobrar para garantir o direito à Educação às crianças e adolescentes do Brasil (e do mundo). Professores e alunos se esforçaram na adaptação ao ensino remoto emergencial, maneira de manter as atividades pedagógicas em condições seguras de saúde. As diversas estratégias educacionais foram o tema de outro texto meu, publicado em Julho/2020.

Agora, em Dezembro, decidi escrever sobre o trabalho do professor ao longo deste ano. Sou educador, porém ao final do ano passado decidi me afastar da sala de aula para focar em outros projetos (como a escrita e os estudos na Educomunicação), por isso não passei pela experiência do ensino remoto emergencial.

Diferente dos textos em que analisei estudos e pesquisas, neste me inspirei em conversas com colegas, na participação em eventos de trocas de experiências docentes e nas minhas percepções pessoais sobre o tema, com foco no ponto de vista dos educadores.

 

O ensino mediado por tecnologias digitais

As tecnologias digitais foram grandes aliadas dos professores no ensino remoto emergencial. Percebi um aumento considerável do uso de dispositivos, plataformas e aplicativos no processo pedagógico. Porém, houveram dificuldades no caminho.

No contexto das escolas públicas principalmente, os alunos tinham limitações no acesso aos materiais digitais, seja por não possuir dispositivo, rede de internet de qualidade ou até mesmo espaço físico adequado para os estudos. Soube de escolas e educadores que adotaram maneiras mais acessíveis de transmitir as atividades, seja por whatsapp (utilizando apenas internet móvel) ou até mesmo produzindo materiais impressos e entregando para as famílias.

Nas escolas em que o acesso ao conteúdo digital não era um problema, os professores tiveram que aprender a mexer nas novas tecnologias. Este aprendizado não foi tranquilo, pois muitos professores nunca tiveram a experiência do ensino remoto. Mesmo aqueles que possuem facilidade, precisaram aprender a utilizar plataformas novas e aplicar de maneira assertiva no processo pedagógico, o que demandou um tempo maior de trabalho.

Algumas instituições apoiaram os educadores, oferecendo formação e disponibilizando profissionais de tecnologia educacional. Porém, nem todas possuem estrutura (e bom senso) para oferecer essa assistência. Ouvi relatos de professores que precisaram se virar para aprender a utilizar as ferramentas digitais e ainda receberam cobranças bastante exigentes dos colégios.

O uso das tecnologias digitais ajudou na missão de realizar o ensino remoto, mas contribuiu para ampliar consideravelmente a quantidade de trabalho dos professores, incluindo o aprendizado do uso e o replanejamento das aulas com as novas ferramentas.

 

Sobrecarga e saúde mental

Profissionais de todas as áreas mostraram dificuldade em trabalhar de suas casas e relataram sobrecarga. Além da necessidade de se adaptarem a novos processos e ferramentas, ainda há a questão de dar conta das tarefas domiciliares e, no caso de pais, de cuidados com os filhos. Os professores passaram pelo mesmo problema.

Não foi fácil conciliar o aprendizado das novas ferramentas, o replanejamento das aulas, a realização das atividade pedagógicas, o acolhimento a alunos e famílias, as responsabilidades dos lares e o estresse do isolamento social. Os educadores que são pais ou mães ainda precisavam cuidar das crianças, que às vezes tinham aula no mesmo horário.

Essa situação resultou em problemas de saúde mental, como ansiedade, estresse e depressão. A cobrança das instituições, os eventuais cortes de salário, o medo da demissão, as poucas horas de sono e a necessidade de parecerem bem para acolher alunos e famílias foram fatores que aumentaram a pressão psicológica em muitos casos.

Nas conversas com colegas e em outros relatos, o principal acolhimento que os professores receberam foi de seus colegas. Educadores apoiando educadores desde o aprendizado das tecnologias até as questões de saúde mental.

 

A luta por melhores condições de trabalho

A sobrecarga de trabalho, a pressão psicológica e o desamparo no uso de novas tecnologias ou metodologias no processo pedagógico, não são problemas que surgiram apenas por conta do ensino remoto. Em muitos casos houve um agravamento, porém as condições de trabalho dos professores nem sempre é adequada.

Os salários nem sempre são suficientes para garantir o bem estar dos profissionais, o que implica em professores trabalhando em dois ou três turnos. Não há apoio ou incentivo à formação continuada, ao mesmo tempo que escolas e pais cobram inovação no ensino. A saúde mental não é tratada como deveria.

É importante discutir as condições de trabalho, trocar experiências entre professores, compartilhar boas práticas de instituições de ensino. Precisamos ter consciência de que o professor é elemento essencial no processo educacional, porém existem diversas outras variáveis que podem ajudar ou atrapalhar sua atuação.

A luta pela valorização dos professores (que passa pela melhoria das condições de trabalho) é de toda a sociedade, que precisa cobrar o Estado e as instituições de ensino.

 

Foto por Jr Korpa emUnsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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