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O contexto da volta às escolas: motivações, riscos e estratégias

O contexto da volta às escolas: motivações, riscos e estratégias

O mês de Agosto chegou diferente. Normalmente marcado pelo retorno das aulas, após as férias de Julho, neste ano o 2º semestre letivo começa com incertezas sobre as perspectivas para as aulas presenciais. No texto de hoje, vou analisar dados de estudos sobre as expectativas de escolas, professores e pais no retorno às aulas.

A situação do coronavírus no Brasil manteve-se em números expressivos de infectados e mortes diárias, ainda apresentando crescimento, porém os contextos de cada estado e, principalmente, de cada município são diversos. Por isso, ainda não existem prazos definitivos para a volta às escolas pelo país, já que significa aglomeração de pessoas em locais fechados.

O governo de São Paulo trabalha com a possibilidade de retorno em Setembro, a depender dos dados de evolução da pandemia. No entanto, a cidade de Manaus já decretou o recomeço das atividades presenciais para o dia 10 de Agosto, será a primeira rede pública. Nesta semana, algumas escolas privadas no Rio de Janeiro e no Maranhão retomaram as atividades.

 

Estudos analisados

Analisei dois estudos também utilizados no texto da semana passada e uma nova pesquisa do DataFolha.

O primeiro estudo, elaborado pelo Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) e pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), contou com a participação de 232 secretarias municipais de educação e 17 estaduais.

O segundo estudo foi desenvolvido pela Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com a UNESCO e o Itaú Social. A pesquisa entrevistou mais de 14 mil professores até o dia 10 de Maio.

A terceira pesquisa foi realizada pelo DataFolha, contratada pela Fundação Lemann e pelo Itaú Social. O público entrevistado foram pais, mães ou responsáveis de alunos das redes públicas de todos as regiões do Brasil.

Ao reunir dados destes três estudos, pude analisar as expectativas das secretarias, professores, professoras, pais e mães para a retomada das atividades presenciais. Para contribuir na compreensão do contexto, acrescentei links de notícias, notas técnicas e outros documentos para quem quiser aprofundar ou conferir as fontes. 

Estruturei o texto baseado em três aspectos importantes a serem considerados nas discussões sobre o retorno: o aspecto econômico; o da saúde; e o pedagógico.

 

Efeitos da crise econômica

Já sabemos que um dos efeitos da grave pandemia é a crise econômica, resultado esperado após um período de quarentena e fechamento de diversas atividades, como a única forma de evitar quantidade maior de vítimas. Os dados do PNAD Covid (pesquisa feita pelo IPEA) indicou no mês de Junho que 32% dos domicílios não tinham renda por atividade de trabalho (eram 23% no 1º trimestre do ano) e que a renda média dos trabalhadores foi reduzida em 83% da renda habitual (de antes da pandemia). Esta redução de renda foi observada na pesquisa do Datafolha.

                                                      Fonte: Datafolha

Com a retomada gradual das atividades profissionais, imagina-se que os pais e mães voltarão aos seus postos de trabalho ou irão procurar um novo emprego. Com a necessidade de retorno ao trabalho, a escola volta se ser necessária para não deixar as crianças (especialmente as mais novas) sozinhas em casa.

Outro impacto da questão econômica diz respeito ao abandono escolar ou à mudança para um colégio mais barato (ou público). Na pesquisa do IRB / Iede, 79% das secretarias municipais pensaram em estratégias para evitar a evasão dos estudantes, seja por questões financeiras (necessidade de trabalhar ou falta de dinheiro para condução) ou por falta de motivação nos estudos.

                                                      Fonte: IRB / Iede

Além disso, há uma preocupação das secretarias entrevistadas com a absorção de novos alunos na rede pública vindos de escolas particulares, o que poderia superlotar as escolas no meio do ano letivo e também indicar risco de falência de colégios privados por saída de alunos.

 

Saúde em primeiro lugar?

De acordo com a nota técnica da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) do dia 22 de Junho de 2020, “a discussão sobre a retomada do ano letivo no país não segue um momento em que é clara a diminuição dos casos e óbitos e ainda apresenta um agravante, que é a desmobilização de recursos de saúde e o desmonte de alguns hospitais de campanha”. Os dados consolidados do país ainda indicam um aumento de mortes, comparando os meses de Julho e Junho.

Há estados e municípios com diminuição de infectados e mortes, mas será que isso justifica a abertura das escolas? Retomar as atividades presenciais significaria colocar em risco os professores, funcionários da escola, crianças e as famílias das crianças. O mesmo estudo da Fiocruz estima que 9 milhões de pessoas do grupo de risco da COVID-19 (idosos e adultos com doenças) moram na mesma residência que crianças em idade escolar. Esse número não inclui adultos saudáveis, nem as próprias crianças, que tem menos risco de desenvolver quadros graves, mas ainda estariam diretamente expostos.

Na pesquisa realizada pelo Datafolha em Julho de 2020, 87% dos pais indicaram ter medo da contaminação pelo coronavírus, enquanto nenhuma das questões pedagógicas foram apontadas como preocupação por mais de 50% dos entrevistados. Para este grupo, a saúde dos filhos é prioridade neste momento de emergência.

                                                      Fonte: Datafolha

Por mais que as escolas permitam que pais e mães decidam sobre o retorno de seus filhos, sem prejuízo na questão da presença, há um grupo que não terá alternativa, os professores e funcionários. Muitos destes têm se manifestado contrários ao retorno, como em carreata realizada em São Paulo ou até mesmo com decisão coletiva no sindicato do Rio de Janeiro de não retomar as atividades sem parecer favorável das instituições científicas. Infelizmente, pela estrutura hierárquica das redes, nem sempre os professores e professoras têm participação na tomada de decisão.

De qualquer forma, quando retornarem as atividades presenciais, será essencial adotar protocolos de segurança sanitária rígidos, mantendo distância adequada entre alunos, evitando compartilhamento de materiais, promovendo a higienização recorrente dos espaços, disponibilizando em materiais de higiene pessoal e equipamentos de segurança, além de realizar um trabalho de orientação e formação das práticas preventivas a professores, funcionários, alunos e famílias. Estas ações exigirão investimento por parte das escolas.

Para quem quiser aprofundar na questão do protocolo de segurança, indico o “Manual sobre biossegurança para reabertura de escolas no contexto da covid-19”, elaborado pela Fiocruz.

 

A saúde mental preocupa

Além da preocupação com a Saúde por conta da doença causada pelo coronavírus, a situação de isolamento social e ensino remoto emergencial tem causado problemas de saúde mental. Acredito que muitos de nós tivemos momentos de estresse, ansiedade e tristeza ao longo desses quase 5 meses. Na pesquisa do Datafolha, 64% dos pais disseram que perceberam os estudantes ansiosos, 45% perceberam irritação e 39% indicaram tristeza.

                                                      Fonte: Datafolha

Na pesquisa da Fundação Carlos Chagas, com professores e professoras, 53,8% dos entrevistados sentiu aumento nos casos de ansiedade e depressão entre os seus alunos, outros 34% não souberam informar. 

                                                      Fonte: FCC

A saúde mental dos jovens ganhou espaço nas discussões dentro das escolas nos últimos anos, um avanço na abordagem de prevenção, aceitação e tratamento das doenças. No entanto, com a situação agravada neste contexto de pandemia, as escolas precisam ampliar o acompanhamento psicológico dos alunos e, também, de professores e funcionários.

 

Expectativas sobre as estratégias educacionais

O aspecto educacional, principal propósito da escola, também exigirá adequações em suas estratégias, por conta dos protocolos de saúde e da necessidade de atingir os objetivos pedagógicos. A maior parte das escolas não seria capaz de receber diariamente todos os alunos em condições adequadas de distanciamento, por conta da limitação de espaço físico e de recursos humanos (isso sem considerar o afastamento de profissionais do grupo de risco).

A expectativa dos pais, de acordo com o Datafolha, é de continuidade das atividades em casa junto com as aulas na escola (89%). Outras estratégias indicadas pela maioria foram a ampliação de horas por dia (68%) e de aulas aos sábados (73%). Também falou-se em prorrogação do ano letivo (72%) e realização de aulas em dias alternados (63%).

                                                      Fonte: Datafolha

A pesquisa da Fundação Carlos Chagas coletou as expectativas dos professores. As estratégias apontadas pela maioria foram a readequação dos modelos de avaliação (84,6%), rodízio de alunos (65,65) e continuidade do ensino online com o presencial (55,9%). Apenas 11,2% dos entrevistados concordam com o cancelamento do ano letivo.

                                                      Fonte: FCC

O que me chama a atenção nessas estratégias é a viabilidade de implementação em termos de recursos humanos. Temos que considerar que (no mínimo) os profissionais pertencentes aos grupos de risco serão afastados das atividades presenciais e que boa parte dos docentes fazem jornadas duplas (até mesmo triplas) em instituições diferentes. Assim, é pouco provável que as escolas consigam promover ações como o aumento da carga horária diária, a reposição de aula, realização de aulas aos sábados e ainda manter atividades online e presenciais simultaneamente. Situação que pode se agravar caso professores sejam afastados por infecção de COVID-19.

Será que mesmo com o retorno das atividades presenciais, as escolas serão capazes de atingir os objetivos de aprendizagem com tantas dificuldades? Como os professores vão lidar com a exposição aos riscos do coronavírus e com um eventual aumento de carga horária de trabalho?

 

Aprendizagem no ensino remoto emergencial

O ensino remoto emergencial não atendeu a todos os alunos, cerca de 21% dos estudantes não teve acesso às atividades, de acordo com a pesquisa do Datafolha. O reflexo da desigualdade econômica entre as regiões fica clara, quando vemos os dados do Norte e Nordeste, que apesar do aumento de uma coleta para outra, indicam que 40% e 30% dos estudantes não têm acesso aos conteúdos.

                                                      Fonte: Datafolha

Pela mesma pesquisa, vemos que apenas metade dos pais tem a percepção de que os estudantes estão evoluindo no aprendizado.

                                                      Fonte: Datafolha

A percepção dos professores e professoras entrevistados pela Fundação Carlos Chagas é semelhante, quase 50% considera que a aprendizagem diminuiu com as atividades remotas. Ainda 25% deles não soube informar.

                                                      Fonte: FCC

O fato é que as escolas precisarão fazer uma avaliação diagnóstica dos estudantes, para entender como foi o aprendizado neste período de ensino remoto emergencial. De acordo com o estudo do IRB / Iede, a maior parte das redes municipais estavam se planejando para tal.

                                                      Fonte: IRB / Iede

O mesmo estudo indica que a preparação dos estudantes para avaliações externas (ENEM, SAEB, PISA e vestibulares) não está sendo realizada na maior parte das redes municipais. Faz todo o sentido, dado que neste contexto as prioridades são outras mesmo. Porém, é mais um desafio para atingir os objetivos de aprendizado, muitas vezes medido e parametrizado a partir destes exames.

                                                      Fonte: IRB / Iede

A recomendação para aprofundamento nas diretrizes educacionais é a leitura das “Orientações Educacionais para a Realização de Aulas e Atividades Pedagógicas Presenciais e Não Presenciais no contexto da Pandemia” aprovadas pelo CNE (Conselho Nacional de Educação).

 

Ensino híbrido

A tecnologia educacional passou a fazer parte dos processos de ensino e aprendizagem como forma de realizar o ensino remoto emergencial. Em uma eventual volta às escolas, será necessário misturar o ensino presencial com ensino remoto. Seja pela opção dos pais em deixar os filhos em casa ou pela necessidade de implementar rodízio entre os estudantes, o ensino híbrido (misto de presencial e mediado por tecnologia) deverá ser utilizado pelos professores e professoras.

O ensino híbrido é um modelo bastante estudado e aplicado por nós especialistas em tecnologia educacional. É uma forma de trazer benefícios do ensino mediado por tecnologia, mesmo nas condições “normais” de sala de aula. Algumas das vantagens são as possibilidades de personalização do ensino, o desenvolvimento de autonomia dos alunos e aplicação de metodologias ativas no processo educacional.

Neste contexto, decidi abordar este tópico nos meus próximos textos do Camadas Educacionais, com o objetivo de compartilhar estes conhecimentos e contribuir eventualmente para a formação de outros educadores e gestores pedagógicos.

 

Quebra-cabeça desafiador

Vimos que o aspecto econômico da perda de alunos das instituições privadas e dos pais e mães que precisam trabalhar, são argumentos para que aconteça o retorno das aulas. Por outro lado, as recomendações da Fiocruz, renomada instituição de pesquisa e vinculada ao Ministério da Saúde, são claras em relação aos riscos de retomar as atividades presenciais em um contexto em que, mesmo nos estados que apresentam queda, há um número alto de infectados e mortos pelo coronavírus diariamente.

O ensino remoto não é eficaz para todos os estudantes, funcionando melhor para aqueles que possuem acesso à internet, dispositivos exclusivos e espaços de estudo. Uma parcela considerável (21%) das crianças não tem acesso a atividades ou conteúdos e a percepção de metade dos pais e professores entrevistados é de que o aprendizado não é satisfatório. A volta das atividades presenciais seria a maneira de garantir o direito à educação.

Porém, dentro das condições possíveis para o retorno, a preocupação é se será possível atingir os objetivos pedagógicos esperados para o ano letivo mesmo presencialmente? O aspecto educacional traz mais desafios para se pensar nesta retomada das aulas presenciais, não sabemos se será capaz de tornar o aprendizado satisfatório, nem se será possível compensar as perdas do ensino remoto.

 

O que você acha do retorno às atividades presenciais?
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Os protocolos para a volta às aulas presenciais foi o tema da terceira live do Camadas Educacionais, com a participação da consultora em gestão escolar Iolene Lima.

As lives acontecem todas as terças, às 19h30. Veja o episódio:

 

Foto de capa por Rubén Rodriguez on Unsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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