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Música na Educação Infantil: tecendo olhares sobre a aprendizagem criativa

Música na Educação Infantil: tecendo olhares sobre a aprendizagem criativa

A música é inerente à infância e aos ambientes da educação infantil. Está presente de várias formas: nas brincadeiras cantadas, nas parlendas, nas histórias, nas cantigas de roda, no “barulhar” das crianças (Lino, 2008). A música está contemplada nos documentos orientadores como componente importante na formação integral da criança na Educação Infantil, e este ambiente tem se configurado como um espaço de atuação para os professores especialistas de música.

É importante que nós, educadores musicais que atuamos na educação infantil estejamos constantemente refletindo sobre os processos de educação musical neste contexto. Por isso, vou compartilhar algumas questões que surgiram a partir de um estudo que realizei com professores e professoras de música que atuam na educação infantil (Malotti, 2014), em que procuramos discutir e refletir sobre o conceito de aprendizagem criativa enquanto referencial orientador para sustentar o planejamento e a ação pedagógica, tecendo assim, olhares e escutas sobre a participação das crianças nas aulas de música.

 

Aprendizagem criativa

A aprendizagem criativa configura-se como uma abordagem centrada nos processos de aprendizagem das crianças e suas interações sociais, bem como na sua independência, autonomia, agência, iniciativa, capacidade de desenvolver ideias e vê-las concretizadas em suas ações (Craft, 2010, p.127). Mobiliza dois princípios complementares: a crença nos direitos da criança, incluindo seus direitos de serem escutadas, participar e ter controle de suas vidas; e o reconhecimento da competência das crianças, em sua capacidade de entender, de refletir e de dar respostas precisas e adequadas (Wood, 2010, p.138). Nessa perspectiva, as crianças são reconhecidas como potencialmente criativas, investigadoras confiantes, construtoras de sentido e tomadoras de decisão.

A aprendizagem criativa compreende um conjunto de característica centrais num ambiente capacitador: fazer perguntas; brincar; imersão, inovação, ser imaginativo, autodeterminação e correr riscos (Craft, 2010). Envolve também aspectos relacionados à atuação dos professores, sendo eles:

  • fornecer uma experiência de aprendizagem bem planejada, contemplando temáticas de interesse do grupo e elaborando atividades que incentivem a criatividade e valorizem produção das crianças
  • diversificar as estratégias de ensino e maneiras como as crianças interagem com a música e também umas com as outras
  • proporcionar um ambiente seguro, de confiança e de relações sociais positivas, onde as crianças se sintam bem para expor suas ideias e suas produções
  • buscar o equilíbrio entre a estruturação e a liberdade, fornecendo espaço à criação das crianças evitando interferir demasiadamente no processo

 

Tecendo olhares

Aparentemente, a concepção da criança como foco central no processo de ensino e aprendizagem parece ser um consenso. Entretanto, as evidências nos mostram que ainda precisamos discutir e promover o protagonismo das crianças.

Professoras e professores apontaram a importância do papel do professor e da disponibilidade do profissional em estar constantemente revendo suas práticas, e até mesmo mudando sua perspectiva de planejamento. Isto porque, a aprendizagem criativa pressupõe um menor controle por parte do adulto e abre mais espaço à atuação das crianças que trabalham com maior autonomia em prol dos próprios processos de aprendizagem.

Outra perspectiva que parece significativa é a compreensão de duas dimensões envolvidas na aprendizagem criativa: as práticas criativas – que envolvem aspectos da atuação dos professores e estão ligadas ao processo de ensinar musica criativamente; e as práticas que promovem a criatividade – que envolvem a atuação das crianças, e estão ligadas ao processo de ensinar para a criatividade musical (Beineke, 2009; Burnard, 2013).

Os professores e professoras procuraram variar os modos de participação, realizaram atividades em processos colaborativos através de trabalhos em pequenos grupos, e usaram diferentes estratégias para dar voz às crianças como caminho para oportunizar que as crianças participassem ativamente da sua própria aprendizagem e revelassem suas perspectivas sobre como aprendem. Ao observar a documentação de uma aula com crianças de 4 e 5 anos, as professoras atentaram para as explicações das crianças, como elas atribuíram os sons ou instrumentos para cada evento, como se deu a divisão dos grupos pelas crianças, a distribuição dos instrumentos, a função de cada grupo, a exploração sonora e a articulação entre as crianças.

A maioria dos professores nunca havia proposto trabalhos de música em pequenos grupos e atividades de composição. Entretanto, perceberam que as crianças expressavam as suas ideias musicais de forma bem estruturada nessas atividades. Os professores indicaram que as mudanças na condução das atividades promoveu o envolvimento de todas as crianças com empenho.  

A partir dos relatos dos participantes pudemos identificar alguns aspectos relevantes:

(1) realizar atividades de composição e trabalhar colaborativamente em pequenos grupos não era uma prática usual em turmas de educação infantil para nenhum dos professores e professoras de música que participaram da pesquisa;

(2) algumas crianças demonstraram autonomia e não apresentaram dificuldades para trabalhar colaborativamente em atividades de composição, participando ativamente em processos de decisão e discussão de ideias, mostrando grande engajamento no processo;

(3) algumas crianças demonstraram dificuldades na articulação de ideias e na interação com seu grupo, necessitando de apoio para tal. Segundo a interpretação das professoras e professores participantes, essas dificuldades podem ter se apresentado em função das características pessoais das crianças que interferem no interagir socialmente, como timidez ou afinidade, ou pela falta de experiências em que são estimuladas a autonomia, a composição e o trabalho colaborativo.

 

Algumas considerações

Os resultados desta investigação indicam que a ação pedagógica das professoras e professores foi influenciada pelos estudos sobre a aprendizagem criativa, especialmente com a inclusão de novas possibilidades do fazer musical. As dimensões do fazer musical, tais como ouvir, tocar e cantar deixaram de ser elementos reprodutivos, e passaram a ser considerados como ferramentas que permitem estabelecer pontes para as conexões, imaginação e ideias das crianças. Atividades de criação e composição, entretanto, foram os aspectos mais relevantes das novas relações que se estabeleceram com o fazer musical por evidenciar de forma mais explícita a agência das crianças, representando uma tônica na elaboração dos planejamentos.    

Quanto às crianças, os participantes apontaram que algumas demonstraram maior envolvimento nas aulas de música e superaram suas expectativas, mostrando que são capazes de trabalhar em pequenos grupos, realizar atividades de composição, e avaliar as suas produções. Essas evidências reforçam como as crianças pequenas podem interagir com um fazer musical reflexivo e criativo.

Desta forma, entendo que continua sendo importante construir processos de formação, ação e reflexão com professoras e professores de musica, capazes de desencadear o pensamento crítico sobre a importância de uma educação musical que visa a promoção da criatividade considerando os direitos, as potencialidades e a agência das crianças na aprendizagem musical.

Recentemente, em razão da pandemia que ocasionou a suspensão das aulas presenciais, tive a oportunidade de, juntamente com a Profa. Dra. Viviane Beineke (Udesc) ministrar um curso de formação para professores de música sobre práticas criativas na educação musical escolar, com foco nos desafios e possibilidades em projetos para o contexto não presencial. Este curso nos permitiu voltar a discutir e refletir com professores de música sobre perspectivas que valorizam o protagonismo da criança na educação musical, e indica que esta ainda é uma temática de grande relevância atualmente.

INVENTA - Grupo de estudos e pesquisas em educação musical 

Inventa Crianças - Projetos do Coletivo Inventa

 

Referências:

BEINEKE, Viviane. Processos intersubjetivos na composição musical de crianças: um estudo sobre a aprendizagem criativa. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Música. Porto Alegre: UFRGS, 2009.

BURNARD, Pamela; MURPHY, Regina. Teaching music creatively. New York: Routledge, 2013.

CRAFT, Anna; PEIGE-SMITH, Alice; e colab. O Desenvolvimento da Prática Reflexiva na Educação Infantil. FIGUEIRA, Vinícius  (trad.). Porto Alegre: Artmed, 2010, p.120-135.

CREMIN, Teresa; BURNARD, Pamela; CRAFT, Anna. Pedagogy and possibility thinking in the early years. Thinking Skills and Creativity, v.1, p.108-119, 2006.

LINO, Dulcimarta Lemos. Barulhar: a música das culturas infantis. Revista da ABEM, Porto Alegre, v. 24, 81-88, set. 2010.

MALOTTI, Ana Paula. O ensino de música na educação infantil: um estudo sobre a aprendizagem criativa. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Música, PPGUMS, Udesc, 2014.

WOOD, Elizabeth. Ouvindo as crianças pequenas: múltiplas vozes, significados e compreensões. In: CRAFT, Anna; PEIGE-SMITH, Alice; e colab. O Desenvolvimento da Prática Reflexiva na Educação Infantil. FIGUEIRA, Vinícius  (trad.). Porto Alegre: Artmed, 2010, p.136-151.

 

 


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Camadas Educacionais
Ana Paula Malotti
Ana Paula Malotti Seguir

Educadora musical atuante na Educação Infantil e centros de ensino. Mestre em Música (PPGMUS/UDESC). Doutoranda no Programa de Doutoramento em Estudos da Criança, Universidade do Minho (Portugal).

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