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Estratégias educacionais durante a pandemia no Brasil

Estratégias educacionais durante a pandemia no Brasil

A crise sanitária causada pelo coronavírus modificou as dinâmicas das atividades sociais, como o trabalho, os estudos e o lazer. O isolamento social se fez necessário para evitar a proliferação da doença. Neste contexto, as escolas de todo o país suspenderam as aulas presenciais e buscaram alternativas para dar continuidade ao processo educacional de maneira remota.

Quatro meses após as primeiras medidas de distanciamento adotadas por instituições públicas e privadas, podemos examinar dados sobre o ensino remoto e refletir sobre as estratégias educacionais adotadas neste período.

 

Estudos analisados

Para escrever este texto, analisei três estudos realizados com secretarias municipais, estaduais e com professores da rede.

O primeiro estudo foi feito pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), uma das instituições mais renomadas na área de tecnologia e educação. A pesquisa foi respondida por 21 secretarias estaduais e cerca de 3 mil secretarias municipais de educação, com dados coletados no final de Março.

O segundo estudo, elaborado pelo Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) e pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), contou com a participação de 232 secretarias municipais de educação e 17 estaduais. O documento traz dados sobre as estratégias educacionais adotadas e relatos obtidos em entrevistas com secretários, realizadas nos meses de Maio e Junho.

O terceiro estudo foi desenvolvido pela Fundação Carlos Chagas (FCC), em parceria com a UNESCO e o Itaú Social. A pesquisa entrevistou mais de 14 mil professores e professoras do ensino público (85% das respostas) e privado (15%), com coleta realizada até o dia 10 de Maio. O foco das perguntas estava na atuação profissional e na percepção dos docentes neste período, além das expectativas para o pós-pandemia.

Os dois primeiros estudos mostram a visão das secretarias, responsáveis por estabelecer soluções para a rede, em momentos distintos da pandemia, a pesquisa do CIEB traz dados do início do isolamento e a do IRB / Iede após 2 meses. O terceiro estudo, da FCC, apresenta a ótica dos professores, aqueles que estão na linha de frente para garantir o direito à Educação para todos os estudantes.

Essa variedade de cenários e pontos de vista enriqueceu a análise das estratégias. Recomendo também a leitura da nota técnica do Todos pela Educação sobre a educação na pandemia.

 

Ensino remoto emergencial e as desigualdades de acesso

Vi especialistas utilizarem o termo Ensino Remoto Emergencial para explicar as condições do ensino neste cenário. O termo utilizado evidencia a principal característica da situação das escolas no contexto de pandemia: o fato de ser emergencial, ou seja, um momento crítico e grave.

É importante ressaltar que não podemos chamar de Educação à Distância (EaD), pois esta pressupõe um planejamento e a utilização de metodologias pensadas para o processo não presencial. Na EaD, as instituições, estudantes, professores e professoras sabem das condições desde o princípio do curso, concordam e se preparam para realizar as atividades de maneira remota. Não é o caso da educação básica no Brasil.

O semestre letivo iniciou de maneira presencial e foi obrigado a modificar sua dinâmica. Assim, todas as pessoas envolvidas no processo não estavam preparadas para estabelecer o ensino remoto, seja em termos de expectativas, de saberes e, principalmente, de infraestrutura necessários.

As oportunidades desiguais na Educação no Brasil, reflexo da desigualdade social, provavelmente será evidenciada, dado que as condições de acesso a materiais e meios de comunicação são diversas. Penso em quantos alunos e professores possuem acesso à internet em qualidade de receber materiais, acessar plataformas e assistir a videoaulas. Mesmo que haja internet, será que as famílias possuem dispositivos eletrônicos para o uso exclusivo dos estudantes? Ou ainda, com todos os familiares evitando sair de casa, há nos lares espaços físicos adequados para a concentração e foco no estudo?

O ensino remoto emergencial está inserido neste contexto e as secretarias, escolas, professores e professoras estão se esforçando para promover o direito à educação e evitar o aumento da desigualdade.

 

A resposta das redes públicas

As secretarias de educação tiveram o desafio de traçar estratégias para a realização do ensino remoto. O Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou em Abril as diretrizes para orientação de escolas nos diversos níveis de ensino, com recomendações para a manutenção das atividades letivas. Em relação às atividades não presenciais, no ensino infantil e nos anos iniciais do fundamental devem contar com os pais e mães na mediação, com orientações claras sobre as atividades. Para os anos finais do fundamental e para o ensino médio, há a recomendação para a realização de atividades mediadas por tecnologia.

De acordo com os dados do CIEB, em Março, a maior parte dos municípios ainda estava no campo das ideias de quais práticas seriam adotadas, enquanto a maioria dos estados estava elaborando o planejamento.

                      Fonte: CIEB

 

Já no estudo do IRB / Iede, cujas respostas foram obtidas em Maio, mostra que a maior parte das redes municipais já haviam estabelecido uma estratégia. Porém, ainda havia uma parcela relevante que não tinha esta definição, chegando a mais de 25% nas secretarias entrevistadas do Nordeste e do Norte. Os motivos apontados foram diversos, como a incapacidade do município em ofertar conteúdos nestas condições, a discordância em relação à efetividade das ações a 100% dos alunos e o atraso para definição das medidas.

                      Fonte: IRB / Iede

Mesmo considerando as diferenças entre as bases, é bom saber que, nos dois meses de diferença entre as coletas de dados, as secretarias municipais conseguiram estabelecer estratégias para atender os estudantes.

 

As estratégias educacionais e tecnologias adotadas

Como esperado, as estratégias educacionais utilizaram as tecnologias da comunicação como mediadoras entre professores e alunos. O conteúdo foi adaptado para o formato digital, em videoaulas e arquivos, preparados pelos próprios professores ou disponibilizados pelas redes.

Nos dados das secretarias municipais na pesquisa feita pelo CIEB, as redes sociais foram a principal ferramenta utilizada para distribuir materiais e orientações, provavelmente por já ser utilizada por professores, pais e alunos, sem necessidade de aprender a acessar uma nova plataforma.

                      Fonte: CIEB | Elaboração: Todos pela Educação

 

Nos dados obtidos com as secretarias estaduais, houve um destaque para as “plataformas online”, ou seja, os ambientes virtuais de aprendizagem. A grande vantagem é serem soluções voltadas para o processo educativo e com funcionalidades específicas para avaliação, entrega de atividades e controle de acesso, ao contrário das redes sociais. No entanto, necessitam que os professores e alunos aprendam a utilizar e configurar a ferramenta. Pela minha experiência como educador e formador de professores, sei que este processo nem sempre é simples.

                      Fonte: CIEB | Elaboração: Todos pela Educação

 

Nos dados obtidos pela Fundação Carlos Chagas (FCC) no questionário com professores, vemos novamente as redes sociais como principal ferramenta de envio dos materiais. As orientações às famílias, prática recomendada pelo CNE para os níveis de ensino infantil e anos iniciais do fundamental, faz parte das estratégias adotadas pela maioria dos professores. Os alunos e as alunas mais jovens precisam da colaboração dos pais e mães na mediação das atividades e a orientação dos docentes deve ser direcionada aos adultos, delimitando o seu papel no processo.

                                            Fonte: FCC

 

No estudo da FCC quase 40% dos professores enviou materiais impressos aos alunos (nos dados do CIEB das secretarias municipais também apareceu esta opção). Estas respostas indicam a preocupação das escolas em atender os estudantes que, provavelmente, não possuem acesso à internet ou dispositivos adequados. Participei de um encontro de escolas públicas de ensino fundamental da cidade de São Paulo, no qual um coordenador pedagógico relatou que a sua escola havia decidido fazer todas as atividades em material impresso, pois a adesão ao ambiente virtual de aprendizagem havia sido de menos de um quarto das famílias.

 

A formação de professores durante a pandemia

A maior parte (cerca de 80%) dos professores e professoras participantes da pesquisa da FCC disseram ter planejado, preparado e ministrado aulas utilizando novos recursos e ferramentas. Para encarar esse desafio, 77% dos docentes declarou ter participado de cursos à distância.

                      Fonte: FCC

 

No entanto, a pesquisa do IRB / Iede indicou que menos de 50% das secretarias municipais ofereceram formações para os profissionais desenvolverem o ensino remoto.

 

                      Fonte: IRB / Iede

No contexto de distanciamento social, cursos, transmissões ao vivo e eventos online ganharam força como meio de formação e busca por novos conhecimentos. O Camadas Educacionais realiza uma live semanal e organizou um evento gratuito em Julho, ambos com foco em conteúdo para gestores da educação.

 

Expectativas para o próximo semestre

Por um lado, não sabemos ainda se as estratégias educacionais adotadas pelas escolas serão suficientes para proporcionar a aprendizagem, menos ainda qual será o impacto destas práticas na questão da desigualdade de oportunidades e privilégios no acesso à Educação. As secretarias, a gestão escolar e os docentes terão um grande desafio para finalizar o ano letivo atingindo os objetivos pedagógicos e sociais.

Por outro lado, vemos que diversas estratégias foram adotadas pelas escolas, aproveitando o potencial de uso das tecnologias de comunicação, sem deixar de buscar soluções para aqueles que não têm acesso. Mesmo em uma situação de emergência, muitos professores e professoras procuraram soluções dentro do seu contexto pessoal, local e institucional para garantir o direito à educação aos seus alunos. Espero que seus esforços sejam valorizados por pais, mães, alunos, alunas e por toda sociedade.

 

Falamos um pouco sobre a Educação na pandemia nas primeiras lives do Camadas Educacionais, que acontecem todas as terças às 19h30.

Veja o primeiro episódio:

 

Foto de capa por Feliphe Schiarolli on Unsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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