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Como o design thinking pode contribuir no processo de design educacional?

Como o design thinking pode contribuir no processo de design educacional?

O início do ano para os professores é marcado pelo planejamento das aulas que serão realizadas. Cada vez mais, as tecnologias educacionais têm papel importante neste plano, especialmente no contexto de ensino remoto ou semipresencial (por conta da COVID-19).

No ensino à distância, os profissionais de design educacional (ou instrucional) têm papel fundamental na elaboração da estrutura e dos materiais dos cursos. As instituições de ensino básico podem aproveitar estes conhecimentos para ajudar educadores e educadoras no planejamento das aulas remotas ou semipresenciais.

Neste texto, vou apresentar o design educacional e mostrar como o design thinking (conceito bastante utilizado na educação inovadora) pode ser utilizado no processo de construir o projeto de um curso.

 

O design educacional

A palavra design pode ser traduzida como “projetar”, “criar” ou “desenhar”, apesar de nenhum destes termos representar completamente o conceito. É bastante utilizada no mundo corporativo, como design gráfico (criação de materiais visuais), design de interiores (projeto de ambientes), webdesign (desenvolvimento de plataforma online), design de produto ou serviço.

O design educacional consiste em projetar (ou criar) um curso, aliando conhecimentos da educação e da tecnologia em um processo criativo. O objetivo é otimizar o aprendizado, alinhando o processo pedagógico às necessidades de alunos, professores, instituições de ensino e outros envolvidos.

O designer (profissional da área) educacional é o responsável nos cursos à distância por auxiliar os professores especialistas na adaptação do presencial para o remoto, utilizando da melhor maneira as tecnologias disponíveis para transmitir o conteúdo aos alunos.

Com as escolas adotando, por necessidade, o ensino remoto ou semipresencial, torna-se interessante conhecer mais sobre este conceito, para melhorar o uso das tecnologias no processo pedagógico.

 

O design thinking

O design thinking é uma abordagem criativa para identificar problemas e desenvolver soluções. Não se trata de uma metodologia, com fórmulas bem definidas e resultados exatos, pois os problemas complexos não se resolvem assim.

O DT propõe uma gama de ferramentas que podem ser utilizadas para resolver problemas de maneira colaborativa e coletiva. É interessante compor uma equipe multidisciplinar neste processo, para ampliar os pontos de vista sobre o problema.

Nesta abordagem, buscamos entender as necessidades dos usuários e outros envolvidos, os aspectos culturais e os contextos sociais, resultando na criação de uma solução para o problema identificado. O processo se divide em cinco etapas:

 

                            Fonte: FGV Jr


 

  1. Imersão ou exploração: o primeiro passo no design thinking é identificar o problema a ser abordado. É importante desconstruir o que imaginamos ser o problema e estarmos abertos a criar uma nova definição. Nesta etapa, é importante identificar quem são as pessoas impactadas pelo problema e entender seu ponto de vista. Aqui podem ser utilizadas pesquisas de opinião, entrevistas com usuários e com especialistas, imersão, grupo focal, etc. O objetivo é criar empatia em relação aos usuários.
     

  2. Definição do problema: o segundo passo é interpretar as informações coletadas e (re)definir o problema principal a ser resolvido. O objetivo é identificar as reais necessidades dos usuários e definir como será abordado o problema. Algumas ferramentas que costumam ser utilizadas nesta etapa são a criação de personas, mapa de empatia, mapa da jornada, SWOT (ou FOFA), mapa mental e infográficos.
     

  3. Ideação: a terceira etapa consiste na busca por soluções para o problema identificado, no plural mesmo, pois o objetivo é ter o máximo de ideias antes de escolher a melhor solução. Normalmente, é realizado um brainstorming onde todos os participantes da equipe dão ideias, que são anotadas ainda sem julgamento. Depois, as sugestões são combinadas, compartilhadas e, finalmente, escolhida a melhor solução.
     

  4. Prototipação: o quarto passo é a criação de uma versão simplificada do produto final, chamada de protótipo. Antes de sair produzindo a solução teorizada, procura-se uma maneira de testar sua eficiência e funcionamento. É importante compreender quais aspectos críticos precisam ser testados, para então definir como será o protótipo. A prototipação pode ser a construção de um produto físico ou digital, o desenho de uma solução, a elaboração de um mapa detalhado do processo, uma simulação de experiência.
     

  5. Testes e melhorias: a quinta e última etapa é a de teste do protótipo construído. Deve-se planejar o teste de modo a obter informações relevantes para analisar as possíveis melhorias para a solução, tendo em vista  o problema identificado. O teste pode ser de usabilidade, de tecnologia, de viabilidade, com opinião de usuários e de especialistas. Ao final, os resultados são analisados e a equipe deve retomar as etapas anteriores, de acordo com as necessidades do projeto. É possível concluir, por exemplo, que é necessário aprofundar a exploração ou redefinir o problema ou montar uma nova solução ou testar outro aspecto da mesma solução.

 

O uso desta abordagem na área da educação vem se difundindo, podendo ser utilizada para o planejamento dos cursos (como veremos a seguir) ou nas próprias atividades com os alunos, por exemplo na educação por projetos. Esta outra forma de inserir o design thinking na educação será tema de outro texto no futuro.

 

Usando o design thinking para projetar um curso

Para utilizar a abordagem do design thinking ao projetar um curso (design educacional), antes de realizar as cinco etapas apresentadas, é necessário montar um grupo multidisciplinar para o processo. A multidisciplinaridade pode envolver professores de áreas do conhecimento diferentes, profissionais de tecnologia educacional, da psicopedagogia, do administrativo e, se possível, alunos e familiares.

Com a equipe definida, pode-se iniciar o processo colaborativo com a etapa de exploração, na qual deve-se identificar os envolvidos com aquele curso e compreender os pontos de vista e necessidades de cada um. Em um curso escolar, é possível explorar a visão de mundo de alunos, famílias, professores e coordenadores. É importante entender detalhes do currículo, BNCC, prova de desempenho, porém estes não podem ser as únicas bases para definir os objetivos do curso.

A etapa seguinte, de definição do problema, precisa identificar quais as necessidades do público que o processo pedagógico precisa resolver. Em determinados contextos o problema será a formação profissional do jovem ou a aprovação no vestibular, em outros pode ser a falta de solidariedade e respeito na convivência ou ainda falta de acessibilidade para o ensino remoto. Essa definição surgirá a partir das informações obtidas na exploração e servirá de bússola neste processo de planejamento.

Após a identificação do problema, se inicia a etapa de ideação, na qual o grupo pode fazer um brainstorming de ideias, primeiro sem julgá-las e depois combinando sugestões para chegar em soluções completas. Ao final, deve-se escolher uma proposta com os detalhamento dos objetivos pedagógicos (baseados no problema), da abordagem pedagógica, dos conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, dos tipos de materiais e mídias, da estrutura das atividades, das formas de avaliação.

Por exemplo, na preparação para o vestibular e ENEM, a proposta escolhida foi de utilizar a abordagem da sala de aula invertida, com videoaulas gravadas com os conteúdos conceituais para serem assistidas em casa, deixando o momento da aula para tirar dúvidas e fazer exercícios em duplas (de forma colaborativa) com acompanhamento do professor. Também definiu-se que seriam realizados simulados mensais do ENEM, pois levantou-se na exploração que era a prova mais importante na opinião dos alunos.

Com a solução detalhada, chega a etapa de prototipação. Neste caso, o protótipo pode ser substituído por uma apresentação do projeto do curso à comunidade escolar, para receber feedbacks e sugestões. Outra possibilidade é fazer uma turma piloto ou um curso mais curto, com objetivo de analisar a reação dos alunos. Por exemplo, na implementação da educação por projetos, pode-se fazer inicialmente apenas com uma das turmas e nos anos seguintes ampliar gradualmente até atingir todas ou pode fazer um projeto inicial, mais curto, para sentir a resposta dos alunos.

Por fim, há o momento de analisar os resultados dos testes de protótipo. Pode-se colher opiniões por meio de formulários de feedback, com uma roda de conversa ao final da atividade e/ou com as avaliações de aprendizado. O grupo multidisciplinar de designers deve analisar as respostas e pensar em melhorias para aplicar a solução completa ou para repensá-la.

 

Espero que tenha conseguido introduzir o conceito de design thinking e deixar clara a sua relação com o design educacional. Esta abordagem contribui para a resolução de problemas complexos de maneira colaborativa e coletiva, contando com a participação de uma equipe multidisciplinar e buscando compreender o ponto de vista de toda a comunidade escolar. Outro diferencial é a etapa de prototipação e testes, encontrando os problemas em ambiente controlado e/ou reduzido, minimizando o impacto negativo.

 

Referências para aprofundamento

 

Foto por Daniele Franchi em Unsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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