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Como foi ser aluno no ensino remoto durante a pandemia?

Como foi ser aluno no ensino remoto durante a pandemia?

O texto de hoje será um pouco diferente dos anteriores, vou fazer um relato pessoal analisando minha experiência como aluno no ensino remoto emergencial durante a pandemia.

Sou estudante da Escola de Comunicações e Artes da USP, no último semestre do curso de Licenciatura em Educomunicação. Iniciei esta nova graduação (sou formado em Engenharia de Produção, na USP), após descobrir a vontade de trabalhar com Educação. Nestes últimos anos, além da Educom (abreviação para Educomunicação), finalizei os estudos de Licenciatura em Matemática e de especialização em Educação e Tecnologia.

No final de 2019, decidi fazer uma pausa da carreira como professor, para finalizar os estudos em Educomunicação e focar na carreira de escritor, sem saber que enfrentaríamos uma pandemia, exigindo a adaptação do ensino presencial para um processo remoto. Não tive este desafio como educador, mas estou na outra ponta do processo.

Acredito que compartilhar essas percepções sobre o primeiro semestre letivo pode contribuir para entendermos o contexto de ensino remoto emergencial nas escolas, sabendo que existem diferenças entre o ensino básico e o ensino superior.

 

Medidas adotadas pela USP na pandemia

Ao longo do semestre, as decisões foram tomadas de acordo com o cenário repleto de incertezas decorrentes da pandemia do COVID-19. A USP decidiu pela suspensão das aulas a partir do dia 17 de Março de 2020 e publicou diretrizes para a continuidade das atividades pedagógicas de maneira remota, a partir do dia 23/03. Cada faculdade (a USP é composta por diversas faculdades e institutos) lidou de maneira diferente, considerando (ou não) as necessidades dos professores, funcionários e alunos.

Algumas das disciplinas em que eu estava matriculado continuaram imediatamente com os encontros e trouxeram propostas para a adaptação das aulas para o ensino remoto emergencial. Outras decidiram esperar algumas semanas para ver a evolução do cenário da pandemia e reiniciaram as atividades após um ou dois meses de pausa. Assim como houve diferenças no tempo para as decisões das secretarias de educação, escolas públicas e escolas privadas, em que instituições iniciaram as atividades remotas quase imediatamente, enquanto outras anteciparam as férias.

Ficou evidente a dificuldade em adaptar para o ensino remoto os cursos planejados para o ensino presencial. Não apenas pela mudança na abordagem dos conteúdos e atividades, mas pelo fato de professores e alunos não estarem preparados e apresentarem diferentes níveis de familiaridade com as tecnologias disponíveis para a comunicação.

A Universidade já definiu que o 2º semestre letivo será realizado totalmente remoto, indicando o possível retorno das atividades presenciais para 2021, de acordo com as condições de saúde pública.

 

Evidenciando a desigualdade

A primeira questão levantada por professores e centros acadêmicos estudantis foi o que seria feito para garantir que TODOS os estudantes pudessem acompanhar as atividades remotas. O acesso a internet de qualidade e a dispositivos eletrônicos seriam essenciais para participar das aulas e realizar tarefas acadêmicas. Infelizmente, este acesso é um privilégio de apenas uma parcela dos alunos e havia a preocupação com a desistência de alunos. Nos últimos anos, a USP ampliou a diversidade social e étnica do novos ingressantes e este processo não poderia ser prejudicado por conta da pandemia.

A Universidade distribuiu chips de internet 4G para os estudantes com necessidades socioeconômicas e alguns institutos emprestaram computadores dos laboratórios de informática. Houve também iniciativa dos departamentos e de professores para mapear as características dos seus alunos, com formulário online, utilizando estas informações no planejamento de suas aulas.

Não obtive informações sobre a efetividade das ações, mas acompanhei colegas com dificuldade de acesso deixando de participar das aulas online, com limitações para realizar tarefas apenas com celular e outros que trancaram as matrículas. Pude ver o tamanho do meu privilégio em ter uma internet fixa estável e um notebook que permitisse acessar os materiais.

Nas escolas de ensino básico, especialmente nas públicas, os professores encontraram este desafio da limitação de acesso à internet, reflexo da desigualdade social. O problema é maior por se tratarem de alunos com menos autonomia do que os universitários, necessitando de maior efetividade na comunicação e proximidade com os professores.

 

O processo pedagógico adaptado

Elaborei uma lista analisando alguns aspectos das estratégias pedagógicas adotadas pelos professores nas aulas que acompanhei.

  1. O acolhimento dos alunos pelos professores e a abertura para o diálogo foram importantes para manter a motivação e encontrar soluções para o processo pedagógico;
     

  2. A redução da duração das aulas (de 3 horas e 20 minutos para uma média de 2 horas) foi providencial, pois percebi maior dificuldade de concentração em atividades remotas, pela tela do computador ou celular, do que presencialmente. Ainda mais considerando que muitas atividades do cotidiano foram adaptadas para o computador;
     

  3. A prática de gravar as aulas e disponibilizar para a turma foi essencial para ampliar o acesso, visto que nem todos os alunos conseguiam participar de maneira síncrona. Também facilitou os estudos, servindo como material de revisão;
     

  4. Criação de grupos de Whatsapp para a comunicação mais efetiva com a turma;
     

  5. O ambiente virtual de aprendizagem teve papel fundamental para a reorganização de prazos, conteúdos e atividades. Os professores que mantiveram as informações atualizadas e organizaram de maneira intuitiva facilitaram a organização dos estudos;
     

  6. As atividades práticas, como projetos e pesquisas, foram facilitadas com o acompanhamento próximo dos alunos pelo Whatsapp e com momentos de orientação. Senti falta de dinâmicas nas aulas que permitissem aos grupos alinharem as tarefas entre seus integrantes;
     

  7. Os prazos de entrega e avaliações foram flexibilizados, em comparação ao planejamento presencial, oferecendo maior liberdade para cada aluno personalizar seu ritmo de estudo. Por outro lado,  entregas intermediárias poderiam ajudar na organização pessoal, já que muitos nunca tiveram a experiência de ensino remoto ou à distância;
     

  8. Houve um prejuízo claro nas discussões entre os alunos na sala de aula virtual, a participação foi menor e os professores não encontraram soluções para aumentá-la.

 

Apesar das dificuldades iniciais de adaptação para o ensino remoto, mudanças de calendário e tomada de decisões no momento de incerteza, a experiência foi bem sucedida. Senti que o aprendizado foi satisfatório e que os professores fizeram o possível para minimizar os efeitos da desigualdade social no acesso aos materiais.

A expectativa para o segundo semestre, planejado para ser totalmente remoto, é positiva e tenho certeza que professores e alunos estarão melhor preparados para dar andamento aos cursos acadêmicos.

 

Foto de capa por Hector.carvalho (CC BY-SA). Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4789132

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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