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Como eu penso o ensino de empreendedorismo nas escolas

Como eu penso o ensino de empreendedorismo nas escolas

O empreendedorismo é um tema que ganhou força nos últimos anos com o surgimento de novas empresas de tecnologia, estabelecendo uma cultura mais informal e criando produtos e serviços inovadores que resolvem necessidades (ou apenas vontades) dos consumidores. Na internet, temos cada vez mais conteúdo sobre o tema, desde notícias até cursos online para profissionais.

Aos poucos, as escolas adotam o empreendedorismo como tema de aulas extracurriculares ou até mesmo intracurriculares. Eu mesmo tive a experiência de ser professor de turmas de disciplina eletiva sobre o tema e de aulas curriculares de Projeto Interdisciplinar, que também abordava o assunto.

Neste texto, vou compartilhar a minha visão sobre o ensino de empreendedorismo na escola (que também já foi tema de publicação do Lucas Soriani, recomendo a leitura).

A ideia é mostrar que mais importante do que conhecer o mundo das startups, o empreendedorismo pode ser uma oportunidade para trabalhar criatividade, reflexão sobre problemas complexos e desenvolvimento de projetos com o protagonismo dos estudantes.

 

Empreendedorismo como resolução de problemas

Eu, pessoalmente, não gosto da visão do ensino de empreendedorismo, exclusivamente, como uma forma de preparar os estudantes para criar negócios e administrar empresas. Em um contexto extracurricular (como as eletivas), este pode ser um dos objetivos, visto que os alunos participantes já possuem algum interesse prévio pelo tema, sempre discutindo de maneira crítica, para evitar replicar o conto de fadas que muitas vezes é contado pelas próprias empresas.

No curricular é preciso pensar se faz sentido colocar esta carreira como prioridade em relação a tantas outras distantes do conhecimento e da experimentação dos alunos. Porém, vejo benefícios ao inserir o empreendedorismo como o processo de criação de soluções para problemas complexos, sejam questões sociais de grande relevância ou vontades de pessoas que possam se tornar oportunidades de mercado

Com essa abordagem, há aprendizados além de entender como criar um negócio, tema que talvez seja do interesse de apenas uma parte dos estudantes. A turma poderá experimentar: a investigação de um problema; a criação de soluções possíveis e viáveis; o planejamento e, quem sabe, a realização de um projeto ou ação.

Vejo como principal objetivo mostrar que com iniciativas empreendedoras podemos resolver problemas pessoais e sociais, inclusive com ações de mobilização coletiva, unindo forças por meio da participação. É interessante mostrar o empreendedorismo como carreira profissional, buscando criar o próprio projeto, desde que o professor aponte outros caminhos além das empresas e startups tecnológicas (que ocupam mais espaço nas notícias), como o empreendedorismo social.

 

Trabalhando com projetos

O empreendedorismo como tema das aulas é também uma oportunidade para adotar a educação por projetos, metodologia ativa que propõe a construção do conhecimento a partir da realização de projetos pelos alunos. O projeto, de maneira bastante genérica, pode ser considerado a dedicação de esforços para planejar (e executar) ações e atividades com objetivos claros.

Ao utilizar a educação por projetos, professores e alunos têm como benefício o desenvolvimento da autonomia, protagonismo, trabalho em equipe, liderança e participação. O ponto de partida costuma ser uma questão problema, que desafia os estudantes em sua resolução e para isso desenvolvem seu projeto.

No caso do empreendedorismo, a solução pode vir em forma de uma empresa, ong ou até mesmo uma ação autônoma, para as quais é importante identificar os clientes, usuários ou beneficiários, compreender suas demandas, compreender os recursos humanos, materiais e tecnológicos necessários e elaborar um plano para a sua realização, incluindo a comunicação, as finanças, as parcerias, a equipe, etc.

O empreendedorismo em sala de aula pode tornar a construção do aprendizado em um processo ativo e contribuir para a construção do conhecimento sobre problemas complexos, visto que é possível direcionar o projeto para temas mais ou menos específicos, por exemplo, problemas urbanos, sustentabilidade, acessibilidade, linguagem.

 

Design thinking

Um dos conceitos que podem ser aplicados no desenvolvimento do projeto de empreendedorismo é o design thinking, que é uma abordagem criativa para identificar problemas e desenvolver soluções bastante utilizada em áreas de inovação e novos negócios.

O DT propõe uma gama de ferramentas que podem ser utilizadas para resolver problemas complexos de maneira colaborativa e coletiva. Nesta abordagem, buscamos entender as necessidades dos usuários e outros envolvidos, os aspectos culturais e os contextos sociais, resultando na criação de uma solução para o problema identificado.

Conhecer este processo pode ampliar o repertório dos alunos para encontrarem soluções para os desafios futuros. O processo se divide em cinco etapas:

 

                            Fonte: FGV Jr

 

  1. Imersão ou exploração: o primeiro passo no design thinking é identificar o problema a ser abordado. É importante desconstruir o que imaginamos ser o problema e estarmos abertos a criar uma nova definição. Nesta etapa, é importante identificar quem são as pessoas impactadas pelo problema e entender seu ponto de vista. Aqui podem ser utilizadas pesquisas de opinião, entrevistas com usuários e com especialistas, imersão, grupo focal, etc. O objetivo é criar empatia em relação aos usuários.

  2. Definição do problema: o segundo passo é interpretar as informações coletadas e (re)definir o problema principal a ser resolvido. O objetivo é identificar as reais necessidades dos usuários e definir como será abordado o problema. Algumas ferramentas que costumam ser utilizadas nesta etapa são a criação de personas, mapa de empatia, mapa da jornada, SWOT (ou FOFA), mapa mental e infográficos.

  3. Ideação: a terceira etapa consiste na busca por soluções para o problema identificado, no plural mesmo, pois o objetivo é ter o máximo de ideias antes de escolher a melhor solução. Normalmente, é realizado um brainstorming onde todos os participantes da equipe dão ideias, que são anotadas ainda sem julgamento. Depois, as sugestões são combinadas, compartilhadas e, finalmente, escolhida a melhor solução.

  4. Prototipação: o quarto passo é a criação de uma versão simplificada do produto final, chamada de protótipo. Antes de sair produzindo a solução teorizada, procura-se uma maneira de testar sua eficiência e funcionamento. É importante compreender quais aspectos críticos precisam ser testados, para então definir como será o protótipo. A prototipação pode ser a construção de um produto físico ou digital, o desenho de uma solução, a elaboração de um mapa detalhado do processo, uma simulação de experiência.

  5. Testes e melhorias: a quinta e última etapa é a de teste do protótipo construído. Deve-se planejar o teste de modo a obter informações relevantes para analisar as possíveis melhorias para a solução, tendo em vista  o problema identificado. O teste pode ser de usabilidade, de tecnologia, de viabilidade, com opinião de usuários e de especialistas. Ao final, os resultados são analisados e a equipe deve retomar as etapas anteriores, de acordo com as necessidades do projeto. É possível concluir, por exemplo, que é necessário aprofundar a exploração ou redefinir o problema ou montar uma nova solução ou testar outro aspecto da mesma solução.

 

Pitch

Outra abordagem presente na cultura do empreendedorismo é o Pitch, uma forma de apresentação sucinta (variando entre 1 e 10 min), destacando os principais pontos de um projeto, com objetivo de gerar interesse para uma oportunidade de apresentar mais detalhes posteriormente. Este tipo de apresentação é utilizada especialmente quando um empreendedor apresenta seu projeto ou novo negócio para um possível investidor.

Para fazer um bom Pitch é importante saber selecionar as principais informações, organizar de maneira compreensível e interessante, além de saber utilizar bem slides e desenvolver boa oratória. Se pensarmos bem, são habilidades necessárias para qualquer apresentação em público e que devem ser desenvolvidas nas atividades escolares.

O Pitch é utilizado também em outros contextos, como na indústria cultural (para apresentar projetos de filmes) e até em entrevistas de emprego (apresentar-se em forma de pitch). Um modelo padrão de estrutura (não é a única maneira) seria:

  • O problema (por que?)

  • A solução (o que?)

  • O cliente / público-alvo (para quem?)

  • O plano (como?)

  • Recursos e prazos (quanto e quando?)

 

Espero ter contribuído para a discussão do empreendedorismo como tema para a sala de aula, mostrando os benefícios e abordagens possíveis, fugindo da visão de que é importante conhecer como funciona um negócio, adotando o desenvolvimento de projetos que resolvam problemas relevantes para o contexto dos estudantes.

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Foto por UX Indonesia em Unsplash

 


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Camadas Educacionais
Henrique Uyeda do Amaral
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Henrique Uyeda do Amaral é escritor e educomunicador. Responsável pela gestão e produção de conteúdo no blog-comunidade. Especialista em educação e tecnologia, já atuou como educador, formador de professores, autor de material didático e mais.

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